Bar Apolo e sua tradicional coxinha frita na hora

Por Admin 14/05/2017 - 20:45 hs

Artigo das historiadoras
Juscélia Abadia Peixoto e Aparecida de Glória Campos Vieira

O Bar Apolo de Araguari, localizado no centro da cidade à Rua Dr. Afrânio 52, representa  tradição quando o assunto é gastronomia. O recanto virou “point” de todas as gerações em busca de saborosos lanches.

Administrado por Danilo Salomão, filho do saudoso José Alvim Salomão e Vilma de Fátima Clemente Salomão, o salgado oferecido aos clientes é de sabor quase idêntico àquele fornecido pela Sra. Vilma, desde sua fundação no ano de 1971, a 5 de fevereiro.

Foto DivulgaçaoO relato do cliente Ronaldo Cesar Borges publicado no Jornal Gazeta do Triângulo do dia 05 de agosto de 2006, atestou a qualidade constante dos produtos, ressaltando principalmente a “coxinha” que é carro-chefe do estabelecimento: “...Atravessando crises, momentos históricos, mudanças e crescimento da cidade, as coxinhas vêm resistindo praticamente com o mesmo formato e sabor. O bar possui uma clientela muito grande e fiel...”

O Bar Apolo foi inserido no comércio local quando o país vivia a ditadura militar (1964-1985) e foi inaugurado com simplicidade, priorizando sempre a qualidade dos ingredientes, o que gradualmente contribuiu para que o empreendimento conquistasse  o  mercado.

No início dos anos de 1970, Araguari era uma cidade com população estimada em 59.798 habitantes, contendo  15 avenidas, 246 ruas, 10 praças e 9.858 construções. No aspecto econômico, passava por momento de estagnação, devido principalmente a fatores como a desarticulação do serviço férreo local, o marasmo nos investimentos financeiros na área agrícola  e o  êxodo rural.

Por outro lado, integrada ao momento circunstancial do país denominado “milagre brasileiro” (1968-1973), a população vivenciava esperança de mudança do cenário.

Novas fontes de renda eram necessárias para um aquecimento econômico e novas propostas agrícolas foram apresentadas. Em 1972, um plano de diversificação agrícola foi implantado pelo Prefeito Municipal Dr. Milton de Lima Filho, gerando novas perspectivas para a população.

Crescentes transformações urbanas aconteceram. Nas vias públicas, foi iniciado um processo de higienização com a inserção do serviço de limpeza efetuado por jovens garis, com uniformes vermelho-laranja que  proporcionavam o cuidado com o espaço público. As Ruas Dr. Afrânio (cenário do Bar Apolo) e Marciano Santos e as avenidas Theodolino Pereira de Araújo e Minas Gerais, obtiveram a feitura de recapeamento asfáltico de 100 mil metros quadrados, obra orçada em Cr$ 800.000,00.

Nesse cenário de visível prosperidade, a família do Bar Apolo composta por José Alvim (descendente  árabe, nascido em Estrela do Sul)  e Vilma (natural de Araguari), casados desde o ano de 1960 e seus jovens filhos David, Sara, Daniel, Danilo e Dimas decidiram acreditar no sonho de dias melhores e buscar uma nova forma de ganho familiar.

Passando por dificuldades, devido a problemas de saúde do patriarca, (que trabalhava como carpinteiro em Araguari e em cidades como Goiatuba, São Paulo, Itumbiara e outras), Vilma de Fátima abriu mão de uma vida dedicada ao lar e colocou seu dom culinário a serviço de seu clã. Antes de enveredar definitivamente nesse ramo do comércio, havia iniciado o fornecimento de marmitas e a produção de salgados por encomendas, mas não  logrou muito sucesso.

Com pleno vigor físico, Vilma  passou a dedicar-se exclusivamente ao Bar Apolo e confeccionava no reduto do bar, vários tipos de salgados e também quitandas para os matinais “cofree break”. Era possível o cliente acompanhar os trabalhos de execução dos saborosos lanches e assim, o ponto comercial ganhou notoriedade e conquistou habituais clientes.

Concretizado como ponto de parada de anônimos e famosos locais, como políticos e empresários, o bar que antes era denominado Big Bar e tinha outros proprietários, se tornou reconhecido e hoje é atrativo de degustação, tanto dos araguarinos quando dos visitantes em estada no município.

Muitos desses viajantes levam na bagagem o salgado, a verdadeira “matula” como diria um bom “minerim”, destinada a amigos e ou a eles próprios. 

O salgado (coxinha) mais procurado do estabelecimento, foi desenvolvido a partir de várias tentativas de ingredientes e temperos, sendo ensinado a Vilma, pelas irmãs de seu esposo, Geralda e Rita Salomão. A partir da receita inicial, a culinarista pesquisou produtos e chegou ao ponto ideal.

Quanto à denominação do bar foi uma homenagem ao grande feito daquele século, a chegada à Lua pelo homem. A missão espacial Apollo 11, expedição da NASA que pousou no satélite da Terra a 20 de julho de 1969, contou com muita repercussão e admiração. Assim sendo, o cunhado de Vilma, Marne Ferreira Alves comerciante na cidade e incentivador do novo negócio, sugeriu o nome, tendo como inspiração a seguinte frase: “um nome forte  para subir e ser coroado de êxito”.

No município uma fábrica de refrigerante, o Guaraná Apolo e também um cinema, o Cinerama Apolo, optaram pelo reconhecimento.

O prédio que acolhe o ponto de venda da coxinha mais famosa da cidade, conclamada na internet por blogs, twitter, facebook, desciclopédia e Orkut, foi construído na década de 1920, pelo português Coronel José Ferreira Alves.

José F. Alves nasceu em Santa Comba a 25 de dezembro de 1869 e faleceu em Araguari em 28 de janeiro de 1943. O imigrante veio para o Brasil por volta do ano de 1885, contraindo matrimônio com Cândida Alves, tendo dois filhos: Juventino e Adgar Ferreira Alves.

O Coronel José Ferreira Alves foi uma pessoa de muitas atividades e de grande poder aquisitivo, sendo banqueiro, ruralista e comerciante, co- proprietário das firmas Ferreira e Cia. Comércio; L. França e Cia; Amorim e Cia.;  J. Ferreira e Cia (localizada na Praça da Matriz  e inaugurada em 1909) e Villa Ferreira Alves (localizada em Ararapira no Distrito de Amanhece).

O Coronel na década de 1920 construiu na Rua Dr. Afrânio, número 46, ampla residência para servir de sua moradia e ao lado dela, no número 52 construiu o imóvel comercial que há quatro décadas é a sede do Bar Apolo.

Inicialmente, o  filho do coronel  Adgar Ferreira Alves, estabeleceu nesse local uma farmácia que funcionou por longos anos.

Posteriormente,  o prédio foi dividido  em duas partes e o fotógrafo alemão Antônio Gebhardt  ali instalou seu atelier intitulado “A Fotográfica”. Anteriormente o estúdio havia funcionado na Rua Esperança, atual  Antônio Lemos da Silva e também na Rua Marciano Santos. Nesse endereço da Rua Dr. Afrânio, atuou até o fim de sua carreira e seus descendentes continuaram o trabalho implantado pelo precursor, até o ano de 2008. Hoje no local funciona “Gebhardt Conveniência”, de seu neto Paulo Rodrigues da Cunha.

A parte do imóvel destinada ao  Bar Apolo,  anteriormente também sediou um estúdio fotográfico, o Foto Geraldo e posteriormente foi sede das lojas:  A Oriental, Bazar Naves e Banca de Revistas do Raul.

O imóvel teve também outras locações, efetuadas pelo herdeiro de Adgar Ferreira Alves, o Sr. Marne Ferreira Alves.

É imprescindível reiterar que Marne, esposo de Valdir Clemente, irmã de Vilma foi o idealizador e incentivador do negócio, informando a família sobre a venda do ponto, cedendo o imóvel para o início das atividades do bar e sendo  avalista junto aos fornecedores.

Marne faleceu poucos anos após a inauguração do bar, entretanto, pode confirmar que sua idéia havia sido coroada pelo êxito. O cunhado de Vilma, detinha importante papel no seio da sociedade araguarina e após seu passamento a municipalidade em forma de homenagem, por intermédio da Lei número 1.840 de 09 de outubro de 1978, destinou a uma via pública do Bairro Industrial o seu nome.

A família Salomão por muitos anos dedicou-se integralmente ao negócio, apenas José Alvim após o restabelecimento da saúde, voltou a atuar no setor da construção civil e como funcionário das empresas Curtume Araguarino e Lunasa. Mesmo não dispondo de muito tempo,  dedicava suas horas livres ao Bar Apolo e ficava no estabelecimento até o encerramento das atividades diárias.

A excelência dos produtos, gradualmente contribuiu para a conquista do mercado e o longo dos anos, o número de salgados e variedades foi substancialmente acrescido. Além da dedicação ao bar, o serviço de encomendas e fornecimento a outros bares e escolas foi agregado; com isso, vários funcionários passaram pela empresa.

Muitos desses ajudantes  tornaram-se verdadeiros amigos da família. Segundo relato de Sebastião M. de Almeida, que muito jovem começou a trabalhar na firma e hoje é proprietário do carro de lanches Gula Mania: “Vilma foi uma verdadeira mãe, me acolhendo e ensinando o ofício”.

O primeiro livro de registro de empregados, aberto em maio de 1973, aparece inicialmente três nomes: Maria Vieira dos Santos, na função de cozinheira; Juraci Rodrigues Cardoso, balconista e Sebastião Machado de Almeida como entregador.

Juraci após ter trabalhado na firma, saiu e se dedicou a outras atividades, entretanto há cerca de três anos, voltou a trabalhar com D. Vilma na confecção dos salgados.

Ao final da década de 1970, o casal Salomão agregou serviço em outro estabelecimento o “Bar Ponteio”, localizado à Rua Jaime Gomes, esquina com a Rua Samuel Santos (atual Vidraçaria São Judas). O empreendimento era divergente do Bar Apolo, pois seu movimento era noturno, fundamentado em aperitivos. As atividades nesse estabelecimento foram encerradas após dois anos e a família voltou a concentrar esforços no processo de sedimentação do Apolo.

No balcão do bar, trabalhou também  o concunhado de Vilma, esposo de Elmira Salomão o italiano João Di Tano,  que junto a esposa muito contribuiu com os trabalhos, inclusive ajudando na criação dos filhos.

Como toda família se envolvia na responsabilidade de fornecer os salgados ao bar, foi natural os filhos  David, Daniel, Dimas e Danilo, terem trabalhado no negócio. Somente Sara, não esteve no atendimento direto ao público, entretanto, trabalhou por muitos anos enrolando coxinha e auxiliando na confecção de outros salgados.

Os jovens faziam o serviço de entregas em bicicleta bagageiro pela cidade de Araguari e até enveredarem em suas profissões, no bar aprenderam a valorizar e a apreciar o trabalho.

O “Bar Apolo” neste ano completa 40 anos de funcionamento e deixa sua mensagem: “Uma família unida em prol de um projeto de vida; tendo no serviço árduo e diário, a manutenção do sustento e a obtenção de sonhos”.

Não foi somente  essas pessoas que concretizaram a história do bar, ela foi alinhavada com figuras muitas vezes pitorescas, outras engraçadas, sisudas, diárias, corriqueiras, enfim todos os tipos de personalidades: o freguês.

Das quatro décadas de funcionamento, muitas lembranças são guardadas por todos os envolvidos no cotidiano do lugar, são  memórias de um estabelecimento, vinculadas à própria vida.

FONTES:
- Depoimentos orais de Dimas Alvim Salomão em janeiro de 2011 e Vilma de Fátima Clemente Salomão em 17 de março de 2011.
- Jornal Gazeta do Triângulo – 15-04-1970.
- Lei Municipal número 1.840 de 09/10/1978.
- Araguari- Guia de Turismo- 1975/76.
- Araguari em Dados – 1975.
- Coluna você Sabia? Jornal Diário de Araguari- 2008.
- http://peron-erbetta.blogspot.com/2008/02/araguari-ontem-e-hoje.html
- http://desciclo.pedia.ws/wiki/Araguari.

PRODUZIDO NO ARQUIVO HISTÓRICO E MUSEU DR. CALIL PORTO- DEPARTAMENTO DA FAEC- FUNDAÇÃO ARAGUARINA DE EDUCAÇÃO E CULTURA.

Historiadoras:
JUSCELIA ABADIA PEIXOTO
APARECIDA DE GLÓRIA CAMPOS VIEIRA.

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José Alvim Salomão e Vilma de Fátima Clemente Salomão

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Filhos de José Alvim e Vilma - da esquerda para a direita -
Daniel, David, Sara, Dimas e Danilo

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Interior do Bar Apolo, aparecem em confraternização: Paulinho Nogueira, Paulo Nogueira Cruvinel, José Alvim Salomão, Marne Ferreira Alves Junior, João Nunes, Mário Nunes

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O imóvel que sediou A Fotográfica e o Bazar Naves